Family Ties - Crítica


O governo de Ronald Reagan (1981-1989) nos Estados Unidos já é história. Então, é hora de olhar com nova perspectiva a “sitcom” “Family Ties”, exibida entre 1982 e 1989 e agora disponível em DVD da primeira à terceira temporada. Conta a história de uma família com dois pais, Elyse (Meredith Baxter) e Steven Keaton (Michael Gross), e três filhos, Alex (Michael J. Fox), Mallory (Justine Bateman) e Jennifer (Tina Yothers). Os pais são ex-hippies que tentam educar os filhos pelos valores dos anos 60. Por outro lado, as crianças são herdeiras da era Reagan: Alex é um republicano radical, Mallory é uma consumidora obsessiva e Jennifer é uma criança que fala o que pensa.
“Family Ties” será sempre associada a Ronald Reagan. Afinal, o ex-presidente disse que a série era seu programa favorito. De fato, é realmente difícil apreciar “Family Ties” sem entender os anos Reagan. Foi a época de um novo nacionalismo americano, quando republicanos e democratas estiveram em lados opostos sobre questões como o serviço de saúde, a seguridade social e as armas nucleares. A série apresenta muito desses temas controversos: o aquecimento global, o armamentismo, a liberdade de imprensa, a ética das corporações e outros.
Outro aspecto do reaganismo presente em “Family Ties” é a influência daqueles tempos na juventude. Alex Keaton, por exemplo, é o típico yuppie republicano. Ele adora administração, é competitivo, defende Richard Nixon e realmente quer se tornar um membro da elite americana. Nos anos 80 ser republicano era chique. Além disso, muitas vezes ser apolítico era uma forma de ser republicano. Mallory, por exemplo, não está interessada em política. Mas vive como uma típica garota da era Reagan: está preocupada somente com aparência, roupas e festas.
“Family Ties” era tão associada com Ronald Reagan que a série acabou no último ano do governo. De fato, não havia mais sentido em uma série de TV sobre os grandes temas da década de oitenta. Havia uma nova ordem mundial no fim da década: a União Soviética estava perto da dissolução, a Guerra Fria estava no fim e a economia americana começava a perder a hegemonia mundial.
Assim, “Family Ties” poderia parecer agora uma série ultrapassada. Mas a verdade é que os Estados Unidos de hoje estão curiosamente muito perto dos daquela época. Reagan discursava contra o “império do mal”, enquanto George Bush fala contra o “eixo do mal”. Como Reagan, George Bush tenta diminuir a atuação do governo nas áreas de saúde e educação e aumentar as despesas públicas nos serviços militares. Como Reagan, George Bush tenta criar um novo nacionalismo americano.
Uma das grandes méritos de “Family Ties” são os atores. Michael J. Fox é único no improviso e na atuação rápida. Seus fãs provavelmente discordam, mas estou convencido de que Fox é fundamentalmente um ator de TV. Sua capacidade de improviso é mais adequada na TV do que no cinema. Seu desempenho em “Family Ties” é talvez um dos melhores da comédia americana (em minha opinião é o melhor de sua carreira). Justine Bateman é muito convincente em uma atuação mais contida. Infelizmente, faz um papel que se esgotou pela repetição nos anos oitenta: o de garota colegial e sexy que adora garotos e festas.
Uma das melhores coisas em “Family Ties” é discutir questões políticas como livre mercado, reciclagem e política econômica em situações diárias - ao contrário de séries como “West Wing” e “Spin City“, que discutem assuntos políticos na rotina dos governos. O humor é sempre inteligente, bem informado e com um significado político. É uma série engraçada, com temas sérios expostos de maneira suave. “Family Ties” merece ser um clássico americano, porque mostra com criatividade uma típica família americana durante um período de transição histórica nos Estados Unidos.
Nota: 10/10
