Mr. Brooks - Crítica

Na história clássica, Dr. Jekyll vira Mr. Hyde ao tomar uma poção que libera o mal dentro dele. Em “Instinto secreto” (Mr. Brooks, EUA, 2007), não é preciso uma poção científica para que Earl Brooks (Kevin Costner) passe de empresário filantropo e pai de família a um serial killer conhecido pela polícia de Portland, Oregon, como “o assassino da digital”. Mr. Brooks é viciado em matar e sente prazer nisso, mas se arrepende depois e chega a rezar para se manter longe do vício assassino. Seu lado negro é um alter ego imaginário, Marshall (William Hurt). Espécie de Grilo Falante às avessas, ele está sempre convencendo Brooks a matar e reage com sarcasmo e ironia aos valores morais do empresário, que tenta resistir ao máximo.
Sem confessar exatamente seu vício, Mr. Brooks passou a frequentar os Alcoólicos Anónimos e está sem agir há dois anos. Mas uma noite ele não resiste e decide matar pela última vez. Porém comete um erro – deixa-se fotografar. O fotógrafo, chamado no filme de Mr. Smith (Dane Cook), faz uma chantagem ainda mais bizarra do que o vício de Mr. Brooks: não o entregará à polícia, desde que possa acompanhá-lo em seus assassinatos. Caso ele não aceite, o fotógrafo entregará as provas para a detetive Tracy Atwood (Demi Moore), que persegue há anos “o assassino da digital”.

“Instinto secreto” é um filme sobre a dualidade humana, sobre o conflito do bem contra o mal não em pessoas diferentes, mas em cada um de nós. É sombrio, mas ao mesmo tempo espirituoso. Os diálogos de Costner e Hurt realmente lembram os de Pinóquio com o Grilo Falante, mas de uma maneira cruelmente invertida. E assim como o Grilo é mais inteligente e espirituoso do que Pinóquio, também o alter ego malvado é mais seguro e decidido do que o hesitante Mr. Brooks, que só parece ficar realmente interessante quando decide matar. As cenas propriamente de suspense e violência são menos do que se poderia esperar, mas ajustadas à trama e sem os clichês dos thrillers. Há ainda algumas cenas de ação capazes de prender a platéia na poltrona.
Ao utilizar o alter ego para mostrar o lado sombrio de Mr. Brooks, o realizador Bruce A. Evans evita o recurso do “voice-over” (quando escutamos os pensamentos do personagem), que é o mais utilizado pelos diretores para mostrar o interior dos personagens. Com isso, muito da realidade do filme se perde. Afinal, é mais fácil acreditar em alguém ouvindo os próprios pensamentos do que conversando com uma espécie de amigo imaginário. Por outro lado, um alter ego acentua ainda mais a dualidade do personagem. É difícil dizer se o diretor queria um filme realista ou algo mais metafórico.

Kevin Costner vence o desafio de interpretar dois personagens que na verdade são um só. Sem poder mudar sua aparência do personagem – já que Brooks no máximo troca de roupa antes de cometer seus assassinatos -, Costner anuncia a chegada do serial killer por sutis mudanças no olhar, na voz e na atitude – sutis, mas que fazem toda a diferença. Mais do que em “3000 milhas para o inferno” (2001), aqui Costner desconstrói sua imagem como idealista americano, que consagrou em filmes como “JFK” (1991) e “Os intocáveis” (1987). Infelizmente, Demi Moore perde a chance de fazer o mesmo. Como fez a partir de um determinado momento em sua carreira – “A Jurada” (1996) é o maior exemplo -, faz de novo o papel clichê da mulher moderna e feminista que mostra seu valor no mundo dominado pelos homens. Bem, ao menos neste filme são os homens que valem o ingresso. Além de Costner, há William Hurt, que atua tão à vontade que parece estar se divertindo o tempo todo.
O grande problema de “Instinto secreto” é que não decide o caminho a tomar. É sombrio, mas arranca risadas em alguns momentos. É quase um drama, mas em vários momentos é suspense e, em outros, policial. Mostra a violência de maneira crua, mas o alter ego de Brooks tira a realidade do filme. É politicamente incorreto, mas endossa o discurso feminista na personagem de Moore e na subtrama centrada na filha de Mr. Brooks. Com um serial killer que reza para não matar, o diretor Bruce A. Evans poderia ter feito um drama psicológico de peso, mas só conseguiu chegar a um entretenimento refinado.
Nota: 8/10 ![]()
