Notes on a Scandal - Crítica

Alguns elementos da tragédia de Otelo aparecem numa versão lésbico-feminista em “Notas sobre um escândalo” (EUA, 2006). Assim como na história de William Shakespeare, o tema é a manipulação, a hipocrisia e – claro – o ciúme. Mas ao invés de Iago, o “manipulador” agora é Barbara Covett (Judi Dench). Ela é uma professora solitária que conhece as motivações humanas e as usa a seu favor. É “só dizer as palavras”, afirma - e as engrenagens sociais começam a funcionar. O filme teve quatro indicações ao Óscar, não ganhou nenhuma, mas foi aclamado pela crítica.

Amarga com sua vida, Bárbara guarda seus pensamentos para si, o que lhe permite cultivar uma imagem austera e fria na escola onde ensina, em Londres. Ela se torna amiga de Sheba Hart (Cate Blanchet), uma professora iniciante. Sheba espera que a carreira de professora possa acabar com a insatisfação que sente em relação a sua vida. Casada e mãe de um filho, ela acredita no potencial da educação para mudar a sociedade. Já Bárbara, acha que “ensinar é controlar uma multidão”. Apesar das diferenças elas logo se tornam amigas íntimas.
Mas Bárbara alimenta uma incomum obsessão pela amiga mais jovem. Isto começa a ficar claro quando Sheila se envolve com um aluno da escola. Bárbara descobre e resolve esconder o fato da direção da escola. Mas com a condição de que Sheila não se encontre mais com o estudante. Na prática, ela passa ter um segredo que lhe dá poder sobre a amiga. Com isso, passa a exigir que seus caprichos sejam satisfeitos, sob a ameaça de revelar o segredo. Agora Sheila está à mercê de uma relação obsessiva, embora demore a percebê-la, tamanha a habilidade manipuladora de Bárbara.
Cate Blanchet e Judi Dench foram indicadas ao Oscar por suas atuações. Ambas trabalham na desconstrução de seus personagens – especialmente Blanchet. No começo as duas professoras são o que a sociedade espera delas. Mas pouco a pouco vão mostrando uma autenticidade interior sufocada pelos papéis sociais que têm de cumprir. Cate Blanchet atua num crescendo que lembra o de Jennifer Connelly em “Água Negra” (2005). Já a interpretação de Dench é prejudicada pelo voice-over (voz interior do personagem). Muito da personagem é exposto já nos primeiros minutos do filme, o que reduz o impacto das revelações posteriores.

“Notas sobre um escândalo” traz algumas cenas fortes, como as de Blanchet com o adolescente interpretado por Andrew Simpson. Os diálogos, com qualidade literária, acentuam as diferenças entre o que é aceito pela sociedade e o comportamento real das personagens. Mas uma coisa parece fora de sintonia: o formato. Os planos longos e a fotografia esbranquiçada dão um aspecto clássico ao filme, mas a trilha sonora evoca o clima de um thriller de suspense. Além disso, o filme aborda um tema forte com uma embalagem clean. A hipocrisia é mostrada em uma linguagem que serve à estética chique. Na temática o diretor Richard Eyre não hesitou em atingir os valores morais da sociedade. Mas na linguagem rendeu-se ao bom-gosto conservador.
Nota: 9/10 
