“As Intermitências da Morte”, de José Saramago
Imaginem que, após a mudança de ano, vocês se descobrem imortais. Óptimo, não?
Agora imaginem que não só vocês, mas todos os vossos compatriotas são imortais. Não tão bom, mas ainda assim excelente, ah?
E agora imaginem que, apesar de imortais, continuavam a envelhecer. Tudo bem, um bocado chato, mas desde que não…
Agora, são imortais, continuam a envelhecer, e, quando chegarem “às portas da morte”, ficam lá, eternamente pendentes. Ora bolas!
É, a imagem assim não seria tão bela como a que tínhamos inicialmente imaginado, pois não?
José Saramago, nestas “Intermitências da Morte” apresenta-nos um quadro… interessante: num país não identificado, a partir do momento em que se brinda um novo ano, as pessoas, incluindo a rainha, que se encontravam prestes a morrer, naquele que todos podiam jurar ser o último suspiro, pura e simplesmente, não morrem.
Nesse dia, 1º de Janeiro, não foram declarados óbitos em nenhuma parte do país (no resto do mundo continuava-se a morrer). Nem no dia seguinte. Nem no outro. E o cenário repete-se; todos os dias.
A reacção geral da população é a euforia, apesar dos pessimistas e de alguns realistas não partilharem do mesmo sentimento. E sem qualquer euforia encontram-se várias instituições:
• A igreja vê na ausência da morte a diminuição de fiéis, pois, afinal, sem morte, como poderá haver ressurreição? Paraíso ou Inferno?
• Os hospitais e os lares do feliz ocaso vêem-se a mãos com uma crescente população de ”vivos-mortos” que se estenderá à eternidade;
• As agências funerárias e as Seguradoras vêem-se em maus lençóis até arranjarem algumas soluções, digamos, originais.
• Etc.
Apesar do ridículo da maior parte das situações, e até através dele, algumas questões importantes são demonstradas: o egoísmo; a extorsão; a falta de união e amor familiar (e, ainda que em menores proporções, a existência dele); a corrupção; a eutanásia (e a sua conversão num negócio); situações que nos fazem reflectir sobre a nossa sociedade e sobre nós próprios.
Ah, é importante apontar que a obra não se desenvolve toda neste cenário, ao longo da história dão-se alguns twists … excelentes, mas mais não digo, é melhor descobrirem vocês mesmos. E, posso garantir-vos que, o final, é sublime…
No tom irónico a que Saramago já nos habituou, aqui está uma obra que é, igualmente, cómica e critica. E que nos faz ver a morte de um prisma completamente diferente…
Sendo Saramago, penso que não necessita de recomendação. Ah, a escrita do autor! Sim, tem um estilo diferente, mas, sinceramente, não parece de todo difícil; aliás, se alguém aqui desistiu de ler/decidiu não ler este autor por causa disso, acreditem em mim: após algumas páginas já nem se nota nada!
P.S.: Se ainda não o fizeram, aconselho-vos a ler a crítica do Rubén, acerca d’”O Ensaio sobre a Lucidez”, que é uma outra excelente obra de José Saramago.
P.S.S.: E, para quem não se importar de saber o conteúdo da obra, aqui fica o link para um curta e excelente crítica de Urbano Tavares Rodrigues

Março 30, 2008 às 2:00 pm
A crítica está muito boa, bem construida! Gostaria que desse uma nota geral ao livro, no entanto. Eu li também e tal como a autora da crítica gostei muito da ironia e ri-me especialmente com os diálogos entre o primeiro-ministro e o bispo patriarca. Pessoalmente, gostei mais da primeira parte da história do que da segunda, mais individualizada. Aconselho!
Abril 26, 2008 às 11:06 pm
Obrigada Peres! Bem, quanto a dar uma nota ao livro, eu considero bastante díficil faze-lo em literatura, mas, se der nota pelo o que eu achei do livro, independentemente de outros, seria 9.5/10! mas é demasiado subjectivo!