
Mais do que uma bala de prata, o melhor meio de matar um lobisomem é com um filme ruim. Hollywood tem feito vários, há décadas. Enquanto o vampiro é a menina (ou o morcego) dos olhos da indústria, o mito do Lobisomem teve seu último grande filme há mais de vinte anos – “Um lobisomem americano em Londres” (1981), de John Landis. Agora, o diretor Joe Johnston (Hidalgo, Jurassic Park III) está trabalhando em uma refilmagem de “O Lobisomem” (“The Wolf Man”, EUA, 1941), o que pode ser um marco zero. Afinal, foi o filme que consolidou a cinematografia desse subgênero.
De acordo com informações do IMDB (www.imdb.com/title/tt0780653), o roteirista de “Seven” (1995), Andrew Kevin Walker, trabalha no projeto. Ele já trabalhou como roteirista na adaptação para o cinema de outra história clássica de terror – “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” (Sleepy Hollow, 1999), de Tim Burton. Outros trabalhos como escritor/roteirista no gênero de terror/suspense são um episódio da serie de TV Tales from the Crypt (1989) e os filmes “Jogo Mortal” (Brainscan, 1994) e “O esconderijo” (Hideaway, EUA, 1995). Pelo que está no IDMB, o cineasta incluiu novos personagens. O apuro visual deverá ser trabalhado com atenção, já que Joe Johnston trabalhou como diretor de efeitos visuais em filmes como “Indiana Jones e os caçadores da arca perdida” (1981) e “Star Wars: o retorno de Jedi” (1983). Sua parceria com Steven Spielberg e George Lucas lhe garantiu trabalho em vários projetos da dupla, como escritor, consultor de design e diretor de arte. O filme está previsto para lançamento em 2009 e terá no elenco Benicio Del Toro e Anthony Hopkins.

O nome de peso de Johnston, Walker e dos dois atores abre a possibilidade de que o filme crie um novo padrão para o cinema de lobisomem Afinal, “O lobisomem” criou as linhas gerais seguidas depois durante décadas. A mais importante delas foi ter dado uma temática ao lobisomem: a criatura representa a crueldade humana, o lado selvagem e violento que cada ser humano traz dentro de si. A lenda do lobisomem é próxima da história do Dr. Jekill e Mr. Hide, mas com a lua desencadeando a transformação ao invés da fórmula científica. A dualidade que marca o personagem foi consagrada no aproveitamento, pelo roteirista Curt Siodmak, da idéia de um filme anterior (Werewolf of London, 1935): a de que o lobisomem persegue aquilo que mais ama. Com isso, o diretor George Waggner mostrou uma história de amor que humanizou definitivamente o personagem. Homem e lobo lutam entre si quando estão na presença da mulher amada, como a bondade e a crueldade têm lutado entre si na sociedade há milênios.

Outros padrões criados pelo filme foram a vulnerabilidade do lobisomem à prata, o símbolo do pentagrama associado à criatura e, finalmente, a forma meio-homem, meio-lobo (baseada em Werewolf of London). A criatura é peluda, mas tem feições próximas de humanas, dois pés (ou patas) e mantém certa racionalidade subconsciente. O lobisomem de duas patas é diferente do que aparece no primeiro filme do subgênero, The Werewolf (1913). Nele a criatura é um lobo sem traços humanos. No entanto, o filme se perdeu no tempo (provavelmente em um incêndio), poucos o viram e portanto não participa da construção do subgênero. Para todos os efeitos, o lobisomem de duas patas é a figura clássica da criatura.
Nas décadas seguintes ao lançamento de “O Lobisomem”, poucos filmes avançaram na construção do personagem. A inovação avassaladora do subgênero só iria ocorrer exatos quarentas anos depois. “Um lobisomem americano em Londres” é uma espécie de refilmagem livre da produção dos anos 40. Landis homenageia o clássico na trilha sonora (o carro-chefe é “Blue Moon”, termo utilizado em um poema citado no primeiro filme), em várias cenas e na história de amor entre o lobisomem e uma mulher. Mas vai além. Tem um tom de humor negro que quebra o formato sério do primeiro filme. A Londres de John Landis não é vitoriana – é urbana, com os preços das mercadorias subindo constantemente na recessão do começo dos anos 80. A história de amor não é mais entre conhecidos de um restrito círculo social. É entre um paciente e uma enfermeira que se conhecem no hospital e transam no primeiro encontro. Não há pais, parentes ou qualquer forma de núcleo familiar.

Mas a inovação mais radical, e pela qual o filme de John Landis entrou para a história do cinema de terror, foi a própria figura do lobisomem. Ele se tornou um animal de quatro patas, sem nenhum vestígio humano. A transformação “suave” dos filmes anteriores foi substituída pela dor assustadora que se vê nos dois minutos em que a estrutura óssea do homem vira a de um lobo completo (e enorme). A transformação é tão perfeita que deu o Oscar de Maquiagem a Rick Baker. O lobo de quatro patas passou a ser o padrão, em filmes como “A companhia dos lobos” (The company of wolves, 1984) e “A hora do espanto’ (Fright Night, 1985).

O lobisomem de duas patas não sumiu completamente (“Grito de Horror”, 1981), mas perdeu o impacto. Nada mais ridículo do que o lobisomem cometendo assassinato com um taco de beisebol (!) em “Bala de Prata” (Silver Bullet, 1985). Jack Nicholson está genial em “Lobo” (Wolf, 1994), mas só até quando os pêlos começam a aparecer. O formato animalesco atende às expectativas comerciais do público de filmes de terror. Uma criatura sem vestígio humano é potencialmente mais assustadora e violenta. Além disso, permite que se trabalhe as cenas violentas sem a participação do ator, só com efeitos especiais, o que dá mais ritmo à criatura. Na verdade, com o tempo os filmes evoluíram para um curioso formato misto, em que o lobisomem não tem vestígio humanos (ou seja, é um lobo), mas anda em duas patas. É o que ocorre em filmes como “Amaldiçoados” (Cursed, 2005), “Van Helsing” (2004) e “Lua Negra” (Bad Moon, EUA, 1996).

Mas agora o cinema de lobisomem ensaia uma volta às bases clássicas. Que a criatura voltará a ter duas patas e vestígios humanos está claro nas fotos divulgadas. Com “Um lobisomem americano em Londres”, Landis conquistou uma nova geração de adeptos para o subgênero (especialmente entre os teens), mas tirou dele a temática clássica da dualidade. O lobisomem meio-humano deixava claro que, mesmo lobo, ainda é o homem o verdadeiro tema da lenda (como o é de todas as lendas, aliás). Resta saber se o diretor Joe Johnston conseguirá entusiasmar as platéias com uma volta aos padrões clássicos. As imagens divulgadas sinalizam para um filme visualmente rico. O roteirista Andrew Kevin Walker é renomado pela criatividade. O time de peso é reforçado pelo próprio Rick Baker, que ao comentar o trabalho de maquiagem que “transformará” Del Toro em um animal de duas patas descreveu um processo baseado em material físico, sem recurso (ou mínimo) aos efeitos digitais. Ou seja, um retorno decidido ao estilo “old school”.
Vida longa ao lobisomem.

oi boa noite
porque
ñ me fais medo pelo o contrario vc é que tem quee ter medo de mim