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“Marie Antoinette”

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Para as nossas leitoras: imaginem-se a casar aos 14 anos com um homem que desconhecem e de outra nacionalidade, herdeiro do trono, com o único propósito de fortalecer as relações entre o vosso país e o dele, sendo depois forçadas a viver no país do dito noivo, e a gerar um herdeiro o mais rapidamente possível. Acrescente-se a isso a delicada situação de arcarem com as culpas de um casamento não consumado até cerca de sete anos depois da cerimónia, por desinteresse do parceiro, além de terem de tomar decisões para apaziguar os confrontos bélicos que envolvem o vosso país, mas que vão contra o do noivo. Tudo isto passado nos finais do séc. XVIII, rodeadas do luxo e das intrigas de Versalhes, num ambiente pré-Revolução Francesa. É esta a história que Sofia Coppola se propõe a contar em “Marie Antoinette”, com Kirsten Dunst a encarnar a visão da realizadora de uma das figuras históricas mais populares, e que, por isso mesmo, partilha semelhanças com Charlotte, a protagonista do seu filme anterior, “Lost In Translation”.

Contrariando o que seria de esperar de um filme ambientado nas vésperas de um acontecimento tão proeminente como a Revolução de 1789, a obra de Sofia empenha-se em observar de forma atenta e sensível a jornada de Maria Antonieta, e não em aprofundar os motivos que despoletaram esse evento (apesar de eles serem, como é óbvio, mencionados). Ver “Marie Antoinette” não serve, portanto, de preparação de última hora para um teste sobre a Revolução, e desapontará igualmente aqueles à espera de um épico, uma vez que a sua única razão de existir é dizer-nos quem foi, afinal, a pessoa que lhe dá título.

Assim sendo, o interesse do filme será a forma como os factos nos são apresentados, e a recriação do ambiente de há cerca de 240 anos atrás. É na realização, mais até que no guarda-roupa e afins, que o filme encontra o seu expoente máximo, acompanhando a protagonista de perto e apostando numa abordagem subjectiva da acção. Os pormenores que são já uma imagem de marca da realizadora (filmar a partir do exterior uma personagem num veículo, ou o sol a brilhar por entre as folhas de uma árvore) estão presentes aqui, o que é agradável para aqueles já familiarizados com o seu trabalho.

Sofia tem um estilo de filmar muito subtil, em que o que é mostrado vale por si mesmo. Neste aspecto em particular, destaca-se a cena que ilustra a inadaptação de Maria aos exageros de Versalhes e ao cargo de rainha que mais tarde vem a ocupar, e a opressão criada em torno dela, que consiste num simples (mas eficaz) zoom-out enquanto a protagonista está numa varanda. Quanto aos cenários, fiquem descansados: a equipa do filme teve permissão para filmar no verdadeiro palácio de Versalhes.

Dito isto, é inevitável falar daquilo que causou maior controvérsia: a banda sonora. Estão lá músicas da época retratada, é certo, e que são usadas nas cenas de baile e afins, mas o choque foi mesmo a inclusão de músicas dos anos 80, de bandas como The Cure, Gang Of Four ou Bow Wow Wow. Digo choque em tom irónico, porque o seu uso vai de acordo com a imagem de uma Maria Antonieta à frente do seu tempo e que, sentindo-se desajustada na sociedade em que é obrigada a integrar-se, revela a certa altura uma atitude de rebeldia, imagem que essas músicas apenas ressalvam.

A banda sonora peculiar e o aparecimento de estranhos objectos no cenário, que ainda não existiam naquela altura (como umas Converse All Stars, ou donuts) ajudam assim a estabelecer a heroína do filme como uma personagem que poderia existir hoje, apesar de tudo. No fim, ela era uma adolescente a querer desfrutar a vida e que apenas se encontra consigo própria no seu retiro, o Petit Trianon, seguindo os ditos de Rousseau segundo os quais o ser humano, bom por natureza, é corrompido pela sociedade. O filme não se abstém de tomar claramente o partido da personagem principal em inúmeras situações, e é precisamente na defesa de Maria Antonieta que reside a sua maior força. Ela podia ter ao seu dispor uma fortuna imensa e todas as regalias da Corte, e ser uma personagem aparentemente frívola, é certo, mas aquilo que o filme se esforça por nos mostrar é o sofrimento que foi obrigada a suportar, em silêncio, devido à sua condição de mulher (estrangeira, ainda por cima, o que só contribuiu para que fosse olhada com um preconceito acrescido).

Pecando somente por um final que soa algo abrupto e por alguns erros factuais (Maria Antonieta teve quatro filhos, por exemplo, e não três), “Marie Antoinette” é muito bom. Tem uma fotografia excelente e uma Kirsten Dunst que mostra todo o seu potencial, num registo diferente do de Mary Jane na saga “Spiderman”. Quanto à realização, só existem elogios a fazer.
Concluindo, pode não ser o melhor filme de Sofia Coppola, mas é sem dúvida mais irreverente e corajoso que “Lost In Translation”, e é a obra que confirma o seu estatuto indiscutível de artista. Numa escala de de 1 a 10, mereceria um 8 muito sólido. Ah, e não resisto a citar uma das frases mais carismáticas do filme, “This, madame, is Versailles”.


3 Respostas to ““Marie Antoinette””


  1. 9 09UTC Janeiro 09UTC 2009 ás 15:20

    Pois eu vou à contra mão da sua opinião, achei um filme bem tedioso e banal… Se tinha como interesse mostrar como a verdadeira Maria Antonieta era, acredite, errou feio… Ela não era uma adolescentezinha da nossa época (como retratada), podia sim ser jovem, inexperiente, “pra frente”, mas tenha certeza que estava longe de ser aquilo… Acho que a Sofia errou a mão depois do EXCELENTE Lost in Translation… Espero que ela demonstre mais talento nas próximas filmagens (pelo menos que não se torne uma diretora do mesmo nível que é uma atriz, rs)…

  2. 2 Pipocas e Outras Tretas
    9 09UTC Janeiro 09UTC 2009 ás 20:49

    “Pois eu vou à contra mão da sua opinião, achei um filme bem tedioso e banal… Se tinha como interesse mostrar como a verdadeira Maria Antonieta era, acredite, errou feio… Ela não era uma adolescentezinha da nossa época (como retratada), podia sim ser jovem, inexperiente, “pra frente”, mas tenha certeza que estava longe de ser aquilo…”

    Como eu disse, é a visão da realizadora da personagem. E como disse também, o filme tem vários erros factuais. O filme é extremamente subjectivo, e eu perdoo o desleixo quanto ao rigor histórico. Obrigado pelo comentário… e, sim, o “Lost In Translation” é excelente. É dos filmes que revejo vezes sem conta, incansavelmente, e em que a cada vez descubro novos pormenores relativamente às personagens…

  3. 3 Pipocas e Outras Tretas
    11 11UTC Janeiro 11UTC 2009 ás 22:03

    Boa crítica, um 8/10 parece-me bastante razoável (ao contrário de um 1,5, não é verdade?)
    Agora sem risos: o filme está muito bom, Kirsten Dunst está magnífica e Versalhes nunca foi tão divertida. Parabéns, Sofia, uhu!
    Flávio


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