12
Jan
09

“Blindness – Ensaio sobre a Cegueira”

untitled-1
Este filme já era esperado por mim há algum tempo. Foi, portanto, com surpresa que recebi a notícia de que o Ensaio sobre a Cegueira ia ser exibido numa biblioteca perto de minha casa, quatro dias antes da sua estreia nos cinemas portugueses. Aproveitei, claro, só um cego não o faria.

Fernando Meirelles já é um realizador conceituado, depois do sucesso mundial que foi Cidade de Deus, que esteve nomeado para quatro Oscars, incluindo Melhor Realizador, e O Fiel Jardineiro que, apesar de não ter sido tão bom como o Cidade de Deus, conseguiu arrecadar um Oscar para Rachel Weisz. Chegou, então, a vez de Meirelles surpreender de novo, agora com a ideia de adaptar para o grande ecrã o romance de José Saramago que muitos diziam ser impossível de adaptar. Mas Meirelles fê-lo. Agora fica a pergunta: fê-lo bem?

FILME vs. LIVRO

Comecemos com as comparações entre o livro e o filme. Não há dúvida, não há mesmo dúvida nenhuma, de que este filme está muito fiel ao livro. Houve cenas cortadas, como é óbvio, mas aquilo que não foi cortado permanece muito parecido com o livro. Claro que se deu a liberdade a Fernando para mudar pequenas coisas, no entanto, a essência está lá e, mais que isso, a mensagem que Saramago quis transmitir com o livro, Meirelles conseguiu mostrar com o filme. As emoções estão lá, talvez não tão fortes como no livro, mas uma imagem vale mais que mil palavras. E, sim, Fernando Meirelles escolheu as imagens certas. Não é à toa que Saramago diz ter gostado “muito, muito, muito” do filme.

INTERPRETAÇÕES

Os actores, antes de começarem a gravar, submeteram-se a longos e morosos treinos de cegueira, ou seja, foram vendados e levados para campos, onde foram deixados à solta para treinarem como deviam comportar-se como cegos, no filme. Não fosse isto, e os actores não saberiam o que fazer quando ficassem subitamente cegos. Foram interpretações fantásticas, uma cegueira colectiva que funcionou a 100%. Julianne Moore está completamente diferente dos seus outros filmes, Mark Ruffalo, pelo contrário, pareceu-me parecido com as personagens interpretadas noutras obras, não querendo dizer que esteja mal, nem nada que se pareça – Ruffalo interpretou a sua personagem bastante bem, mas dá-me a sensação que falta qualquer coisa. Não é uma personagem memorável, como foi por exemplo, o rei da camarata 3, interpretado por Gael García Bernal. Fiquei positivamente surpreendido com o seu à vontade no filme. Bernal soube ser superior e, lá no fundo, um pouco assustado com a cegueira que o contagiou. Destaque vai para a cena onde ele canta uma música alegre sobre o amor, enquanto faz uma pequena dança patética, despertando algumas gargalhadas no auditório onde estava. Estes momentos mais humorísticos, feitos por Saramago de outra forma, através de texto, serviram para amenizar um pouco a atmosfera apocalíptica do filme e funcionaram muito bem. Alice Braga teve o azar de não aparecer no filme na quantidade que merecia, mas quando apareceu, só se viu a rapariga dos óculos escuros. Danny Glover conseguiu dar ao filme umas partes mais acolhedoras, com a sua voz tranquilizante, apesar de contar episódios trágicos que aconteciam um pouco por todo a cidade, enquanto esta estava a cegar lentamente.

CINEMATOGRAFIA

Sempre que juntarem o cinematógrafo César Charlone com Fernando Meirelles, só por isso, vale a pena ir ver o filme. A cinematografia experimental, que também apareceu em Cidade de Deus e O Fiel Jardineiro, marca de novo presença em Ensaio sobre a Cegueira, com uma força gigantesca e espectacular. Está de tal forma bem feita que parece que nós próprios ficámos cegos. Levava um Oscar, se fosse eu a escolher. Quase que nem consigo expressar-me como deve ser, tem que se ver para perceber. A escolha do desfocado e o nítido e o branco e o escuro, tudo escolhido a dedo, sem erros, está lindo.

BANDA SONORA

Quem esteve a cargo da banda sonora de Blindness foram os Uakti. É, como praticamente todo o filme, uma música muito experimental, diferente de tudo o que já ouviram, onde é o próprio grupo que constrói os seus instrumentos musicais. A banda sonora foi dos elementos mais marcantes em todo o filme, pois juntaram cenas intensas com músicas quase cómicas, que fizeram, vá-se lá saber como, endurecer ainda mais as cenas. Há uma maturidade escondida nas músicas que compõem o filme. Outro ponto alto da película.

REALIZAÇÃO

Que mais se pode dizer de Fernando Meirelles? Já “formado” realizador profissional não só como profissão mas também na qualidade – há que reconhecer o mérito quando ele aparece. Muito mal disseram deste filme, mas Fernando não ligou muito e ainda bem, porque para um realizador, um filme é como se fosse um filho. E que filho que este filme é! Meirelles está de parabéns, porque, pessoalmente, (logo eu que sou esquisito com os filmes) estava com expectativas enormemente altas e o filme esteve à altura.

Vale a pena ver este filme? Claro que vale! A arte está toda lá – finalmente um filme que confirme que cinema é arte. Só consigo dizer uma coisa: fiquei cego de vontade de ver o Ensaio sobre a Cegueira mais uma vez.

Miguel Pinho


Tal como o Miguel, o leitor pode também enviar-nos críticas cinematográficas ou de outro tema relacionado com as artes: basta aceder a nossa zona livre. Para ler mais críticas do autor clique aqui.


4 Respostas to ““Blindness – Ensaio sobre a Cegueira””


  1. 1 Pipocas e Outras Tretas
    12 12UTC Janeiro 12UTC 2009 ás 21:51

    Bom texto, Miguel! Tal como tu, adorei o livro e tinha muitas expectativas para o filme, que foram satisfeitas. Pena a Rapariga dos Óculos Escuros aparecer pouco… mas adorei a cena de amor dela com o Médico! Enfim, adorei a fotografia e a banda sonora também.
    rúben

  2. 12 12UTC Janeiro 12UTC 2009 ás 22:06

    O filme é sensacional, eus ou um daqueles igorantes que não leu o livro (e me envergonhod isso, rs), mas consigo imaginar a sutileza dele vendo-a na direção fantástica do Meirelles num dos seus melhores trabalhos (só discordando de você no que diz que o Jardineiro Fiel não é tão bom quanto Cidade de Deus, rs)… Nada muito à declarar, você falout udo e mais um pouco, depois dá uma passada para ver o que foi escrito no Cara da Locadora sobre o filme, abraços…

  3. 13 13UTC Janeiro 13UTC 2009 ás 14:20

    Meirelles conseguiu trazer ao grande ecrã uma película genial, a meu ver.
    Parabéns pela crítica, Miguel, tens feito boas colaborações e espero que continues a participar! ;)

    Flávio

  4. 4 Ju
    12 12UTC Julho 12UTC 2009 ás 00:33

    Já li o livro e gostei, não é do genero de livros que costumo ler, e José Saramago nunca me despertou muito interesse,

    Estou curiosa pois ainda não tive oportunidade de ver o filme, mas espero que esteja tão bom como o livro !


Deixar uma Resposta




Bem-vindo

Bem-vindo ao Pipocas e Outras Tretas, um espaço de opinião pessoal dedicado às artes em geral, como o cinema, a literatura, a música e a televisão.

Visitas

  • 94,865 pessoas visitaram-nos

Autores Antigos

Críticas / Reviews

Os títulos abaixo listados foram os que neste blog foram criticados e analisados na área do cinema, da literatura, televisão, dos videojogos, do anime, e da música, assim como se encontram presentes os especiais realizados. Nos filmes encontra-se presente o ano de lançamento original e nos livros o autor.

Direitos Reservados

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.