
Falar de “Once” lembra-me do teste em que me era pedida uma análise da obra de Caeiro, quando o próprio Fernando Pessoa escreveu que sobre os poemas desse seu heterónimo “não se pode comentar, porque se não pode pensar, o que é directo, como o céu e a terra; pode tão-somente ver-se e sentir-se”. Ambos são formas de Arte que não necessitam de um debate minucioso ou uma de meditação aprofundada para nos dizerem alguma coisa. Mas, tal como a simplicidade de versos como “acho que só para ouvir passar/o vento vale a pena ter nascido” não deixava de ser bela, também “Once – No Mesmo Tom” consegue ser emocionalmente poderoso, embora partindo de uma premissa já demasiadamente familiar a todos nós: o boy meets girl.
Por vezes pergunto-me o que procuro, afinal, do Cinema. A resposta imediata, a que de facto me ocorre neste momento, seria: uma boa história, devidamente contada. Existem filmes erigidos sobre argumentos mirabolantes, com uma realização magistral, ou uma fotografia onde todos os pormenores se conciliam para compor planos que se assemelham a verdadeiros quadros. De facto, alguns dos meus filmes favoritos correspondem a esta descrição (bem, quanto ao argumento nem tanto – não é necessário ser rebuscado para ser interessante, e sou dos que defendem a importante, e por vezes esquecida, diferença entre o complicado e o complexo). Em “Once”, tudo isso é secundário. Não é de admirar, já que o orçamento, segundo consta, não ultrapassou os 100 mil euros. O que conta realmente são as personagens principais.
Ele repara aspiradores na loja do pai e toca na rua acompanhado pela viola, na esperança de ganhar algum dinheiro; ela vende flores e pratica a paixão pelo piano à hora do almoço, todos os dias, numa loja de música. Ela vê-o todos os dias, e certa noite congratula-o pelo seu desempenho, oferecendo-lhe até dez cêntimos – e assim se inicia um vínculo cada vez mais forte que passa a ligar os dois.
Porém, o relacionamento deles jamais surge como a solução dos seus problemas (sentimentais ou monetários). E ainda bem. Este é um filme com uma surpreendente noção da realidade, e isso é visível por diversas vezes. As suas personagens têm uma vida como qualquer adulto, que implica responsabilidades e deveres – algo que, muitas vezes, interfere na relação que os dois vão construindo na semana em que se conhecem e começam a compor músicas. Mas desenganem-se aqueles que leram a sinopse, Ele e Ela não cantam sobre essa relação, mas sobre os assuntos amorosos mal resolvidos de cada um.
E assim os acompanhamos, à medida que se conhecem e relatam as vidas deles através das canções. Ou não fosse “Once” a celebração dos sentimentos através da música. Desde os primeiros instantes, mais tensos, ao julgamento errado que ele faz acerca das intenções dela, pouco depois, até à amizade. A história dificilmente se poderia considerar romântica; o que presenciamos é mais uma relação platónica, predicada à máxima de que o verdadeiro amor é aquele nunca consumado.
O interesse principal recai, então, na música. E é nesse departamento que o filme atinge o seu expoente máximo. A estrela será, sem dúvida, “Falling Slowly”, que dispensa apresentações e que ganhou o Oscar de melhor música original, mas há também a enérgica “Fallen From The Sky”, “Say It To Me Now”, ou uma das mais enternecedoras, “Lies”. E todas estas foram escritas pelos músicos que interpretam as personagens principais. Glen Hansard eMarkéta Irglová são músicos, e não actores. Mas a decisão do realizador em preferir pessoas que saibam realmente cantar ao invés de verdadeiros actores é acertada, já que o par é sem dúvida talentoso, e possui a química necessária para tornar a relação deles natural.
As personagens de “Once” estão frequentemente divididas entre o que são, e o que gostariam de ser. É uma relação cujos intervenientes gostavam que evoluísse, embora conscientes de que tal seria impossível. No final, existe a possibilidade de um futuro feliz para os infortúnios amorosos do passado, através da ajuda que cada um providenciou ao outro no presente. É uma conclusão que, não agradando decerto aos mais habituados ao genérico happy ending, consegue ser honesta, como até ali tudo o que lhe precedeu havia sido. “Once” tem defeitos, sim (um deles não ligado ao filme em si, mas ao subtítulo português, mais adequado a uma comédia romântica do género “Music and Lyrics”), mas é, no todo, uma lembrança do que o bom Cinema devia ser, sempre: uma boa história, devidamente contada.
Rúben Gonçalves

Excelente crítica, Rúben! Parabéns por essa opinião, que acaba por ser uma reflexão por extensão do Cinema em termos gerais (mas que nem todos concordariam, a avaliar pelo estado da qualidade dos produtos que têm vindo ultimamente às salas de cinema). É um filme obrigatório, parece-me, espero adorar tanto quanto tu (o que me parece, no entanto, um pouco impossível).
Flávio