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Jan
09

“Once – No Mesmo Tom”

onc43

Falar de “Once” lembra-me do teste em que me era pedida uma análise da obra de Caeiro, quando o próprio Fernando Pessoa escreveu que sobre os poemas desse seu heterónimo “não se pode comentar, porque se não pode pensar, o que é directo, como o céu e a terra; pode tão-somente ver-se e sentir-se”. Ambos são formas de Arte que não necessitam de um debate minucioso ou uma de meditação aprofundada para nos dizerem alguma coisa. Mas, tal como a simplicidade de versos como “acho que só para ouvir passar/o vento vale a pena ter nascido” não deixava de ser bela, também “Once – No Mesmo Tom” consegue ser emocionalmente poderoso, embora partindo de uma premissa já demasiadamente familiar a todos nós: o boy meets girl.

Por vezes pergunto-me o que procuro, afinal, do Cinema. A resposta imediata, a que de facto me ocorre neste momento, seria: uma boa história, devidamente contada. Existem filmes erigidos sobre argumentos mirabolantes, com uma realização magistral, ou uma fotografia onde todos os pormenores se conciliam para compor planos que se assemelham a verdadeiros quadros. De facto, alguns dos meus filmes favoritos correspondem a esta descrição (bem, quanto ao argumento nem tanto – não é necessário ser rebuscado para ser interessante, e sou dos que defendem a importante, e por vezes esquecida, diferença entre o complicado e o complexo). Em “Once”, tudo isso é secundário. Não é de admirar, já que o orçamento, segundo consta, não ultrapassou os 100 mil euros. O que conta realmente são as personagens principais.

Ele repara aspiradores na loja do pai e toca na rua acompanhado pela viola, na esperança de ganhar algum dinheiro; ela vende flores e pratica a paixão pelo piano à hora do almoço, todos os dias, numa loja de música. Ela vê-o todos os dias, e certa noite congratula-o pelo seu desempenho, oferecendo-lhe até dez cêntimos – e assim se inicia um vínculo cada vez mais forte que passa a ligar os dois.

Porém, o relacionamento deles jamais surge como a solução dos seus problemas (sentimentais ou monetários). E ainda bem. Este é um filme com uma surpreendente noção da realidade, e isso é visível por diversas vezes. As suas personagens têm uma vida como qualquer adulto, que implica responsabilidades e deveres – algo que, muitas vezes, interfere na relação que os dois vão construindo na semana em que se conhecem e começam a compor músicas. Mas desenganem-se aqueles que leram a sinopse, Ele e Ela não cantam sobre essa relação, mas sobre os assuntos amorosos mal resolvidos de cada um.

E assim os acompanhamos, à medida que se conhecem e relatam as vidas deles através das canções. Ou não fosse “Once” a celebração dos sentimentos através da música. Desde os primeiros instantes, mais tensos, ao julgamento errado que ele faz acerca das intenções dela, pouco depois, até à amizade. A história dificilmente se poderia considerar romântica; o que presenciamos é mais uma relação platónica, predicada à máxima de que o verdadeiro amor é aquele nunca consumado.

O interesse principal recai, então, na música. E é nesse departamento que o filme atinge o seu expoente máximo. A estrela será, sem dúvida, “Falling Slowly”, que dispensa apresentações e que ganhou o Oscar de melhor música original, mas há também a enérgica “Fallen From The Sky”, “Say It To Me Now”, ou uma das mais enternecedoras, “Lies”. E todas estas foram escritas pelos músicos que interpretam as personagens principais. Glen Hansard eMarkéta Irglová são músicos, e não actores. Mas a decisão do realizador em preferir pessoas que saibam realmente cantar ao invés de verdadeiros actores é acertada, já que o par é sem dúvida talentoso, e possui a química necessária para tornar a relação deles natural.

As personagens de “Once” estão frequentemente divididas entre o que são, e o que gostariam de ser. É uma relação cujos intervenientes gostavam que evoluísse, embora conscientes de que tal seria impossível. No final, existe a possibilidade de um futuro feliz para os infortúnios amorosos do passado, através da ajuda que cada um providenciou ao outro no presente. É  uma conclusão que, não agradando decerto aos mais habituados ao genérico happy ending, consegue ser honesta, como até ali tudo o que lhe precedeu havia sido. “Once” tem defeitos, sim (um deles não ligado ao filme em si, mas ao subtítulo português, mais adequado a uma comédia romântica do género “Music and Lyrics”), mas é, no todo, uma lembrança do que o bom Cinema devia ser, sempre: uma boa história, devidamente contada.

Rúben Gonçalves


1 Resposta to ““Once – No Mesmo Tom””


  1. 1 Pipocas e Outras Tretas
    13 13UTC Janeiro 13UTC 2009 ás 19:34

    Excelente crítica, Rúben! Parabéns por essa opinião, que acaba por ser uma reflexão por extensão do Cinema em termos gerais (mas que nem todos concordariam, a avaliar pelo estado da qualidade dos produtos que têm vindo ultimamente às salas de cinema). É um filme obrigatório, parece-me, espero adorar tanto quanto tu (o que me parece, no entanto, um pouco impossível).

    Flávio


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