
Esta pequena peça de Raúl Brandão, normalmente editada com “O Gebo e a Sombra” do mesmo autor, é uma chamada à vida.
Talvez devêssemos começar por dizer o que é, afinal, o Avejão. Segundo o dicionário: s. m. , ave grande; fig., abantesma; fantasma; homem agigantado e feio. Certamente que, neste caso, não se trata de ave alguma, mas a sua súbita aparição, faz, sem dúvida lembrar um fantasma ou um espectro. Não sabemos se o é.
Este texto inicia-se no leito moribundo de uma mulher, já idosa (a velha). Segundo a didascália é noite.
Toda a primeira cena faz-nos pensar a velha como alguém de moralidade superior e a quem devíamos seguir os passos na sua humildade e sacrifício. Todos quantos a conhecem estão certos de que ela é uma santa e que a espera o eterno descanso num paraíso bem merecido. Afinal ela é um exemplo de virtudes. Até o seu testamento dá como herdeiros “a obra de conversão dos ímpios”.
Na segunda cena somos apresentados à santa moribunda. Diz ouvir vozes e ver figuras. Aparece Avejão.
As primeiras palavras dele levam-nos, no imediato, a uma mudança de perspectiva sobre a vida da velha:”Fizeste-a bonita, estragas-te a vida toda.” Toda a vida de sacrifício da velha, que tinha como único propósito morrer e ir para o céu, é dita por ele como algo inútil, levando a velha à conclusão de que , afinal, não tinha vivido. Tem de encarar o facto de que, talvez, não haja nada após a morte, que essa vida que ela não viveu, poderá bem ser a única existente
Chegada a estas conclusões a velha implora ao Avejão que a deixe viver, sofre, amar, mas como ele diz, “Agora é tarde. Tiveste medo da vida””A vida é só uma. Uma vida! Uma vida que não se repete! Que não se repete mais. Uma hora que se perde e não torna, por mais esforços que se façam.”Acaba a velha por morrer (mas longe de o fazer em paz).
Como Raul Brandão declarou, o teatro “deveria debater um grande problema social ou psicológico”, e esta peça, apesar de bastante sintética, fá-lo sem dúvida alguma. Ao confrontar a vida da velha com a visão de vida do Avejão, Raul Brandão faz-nos pensar o que vale realmente a pena:
• Fazer como a velha, que em toda a sua vida viveu para os outros, aliás, para Deus, usando até um “cilício e uma camisa de estopa”, reprimindo instintos e paixões, tudo com vista num ideal;
• Ou, como o Avejão nos mostra, viver simplesmente? Amando, sofrendo, tendo até uma vida de desgraça, mas de um modo qualquer, viver. Viver sem por os olhos num ideal que pode, pura e simplesmente, ser apenas fantasia.
É importante notar uma coisa, não é esta mensagem de Avejão um convite à marginalidade. É, apenas, um convite à vida, mas uma vida em que não se trabalha para ser feliz após a morte, mas antes dela.
A moral desta história é, realmente, bastante simples. È como diz o povo: só temos esta vida como certa. E “o Avejão” lembra-o.
Isabel Dias

0 Respostas to ““O Avejão””