É com grande facilidade e legitimidade que podemos considerá-lo o último grande clássico do século vinte, uma obra-prima marcante merecedora de todos os prémios recebidos. “American Beauty” consegue, contudo, transcender o reconhecimento atribuído pelo público em geral, expressando quase na perfeição, com a sordidez, falsidade e imbecilidade das acções humanas que nos fazem parecer tão pequenos, a beleza do mundo.
Sam Mendes, que recentemente nos trouxe um “Revolutionary Road” com reflexos evidentes deste trabalho (quer no estilo ou na história), ganha a verdadeira qualidade de realizador, com uma louvável direcção artística: planos memoráveis que se cursam com uma harmonia e calma incríveis, um jogo intenso de cores e uma diversidade de elementos simbólicos que só poderiam resultar de um argumento de génio (assinado por Alan Ball), que toca em temas tão simples quanto profundos. Aliás, podemos considerar que tudo o que está escrito é o ponto mais elevado da película. As diferentes narrativas, com todas as suas particularidades, se interligam numa última hora de clímax exímia, que Thomas Newman fez questão de, mais uma vez, não passar por despercebida, levando aos nossos ouvidos, como o fez já com “Os Condenados de Shawshank”, “Anjos na América”, “À Procura de Nemo” e “Revolutionary Road”, uma admirável banda-sonora. Nada, claro, está nas cenas por um simples acaso. Só a despretensiosa (mas constante) presença das rosas e pétalas vermelhas personificam a pura inocência que o conjunto maravilhoso de actores não arruinou.
De longe, Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch estão de tirar a respiração, acrescentando ao grupo a talento-revelação de Angela Hayes. Contudo, é a personagem secundária de Wes Bentley, como o adolescente Ricky Fitts, que parece ter saído de “Aparição”, de Vergílio Ferreira, e que se me apresenta, apesar de todos os defeitos que o tornam ainda mais humano, como a mais sensata e sábia personagem do filme, e que fez com que um ordinário saco de plástico a dançar com o vento ganhasse vida e perfeição.
O filme viaja, portanto, no limiar onde patéticos devaneios, receios e ilusões de típicos ocidentais se chocam (há quem queira ser bem sucedido profissionalmente, quem queira impressionar alguém, quem viva em negação consigo mesmo, e por aí adiante), acabando as personagens por se comportarem, tal como em “Little Children” também nos mostra, como autênticas crianças desprovidas de bom senso. E, já que pegamos no exemplo, tornam-se evidentes as influências causadas por “American Beauty”; o sentido profano como forma de explorar a psicologia dos seres humanos no cinema é visível em diversas obras desta década presente.
Pouco há mais que dizer quando tudo me parece tão bem feito. Desculpa andrajosa para quem não tem vontade para escrever? Parece-me a mim, para quem viu o filme, que não, e que entenderão o que acabo de dizer. Se bem repararmos, numa cena em que Lester está a trabalhar, podemos ver escrito na secretária “look closer”, e o que e o que nos compete fazer durante as duas poderosas horas de filme e após, para sempre: olhar mais aproximadamente, com olhos de ver e analisar, de forma a podermos experimentar verdadeiramente toda a beleza e o milagre de viver.
Flávio Gonçalves

É um filme lindo, que consegue emocionar só de ler sobre ele, rs… Abraços…
Eu já vi este filme, mas, honestamente, não me lembro de quase nada ( ou nada mesmo). Acho que a imagem das pétalas a cair, vai ficar para sempre na minha memória.
Tinha visto o filme há anos atrás.
Comprei-o há poucas semanas e revi.
É muito bom, claro. Sam Mendes revelou-se um realizador excepcional.
Cumps.
Roberto F. A. Simões
CINEROAD
gostei muito do filme