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Jan
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“Se, Jie – Sedução, Conspiração”

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Nem toda a beleza apresentada, por mais estilizada que possa parecer, tem como efeito a idealização da realidade, e o mais recente filme de Ang Lee prova, mais uma vez, que qualquer panorama paisagístico, qualquer gesto humano, por mais simples ou sórdido que a início possa parecer, pode resultar na perfeição emocional e estética de uma situação, levada, neste caso, ao grande ecrã, deleitando, certamente, como feliz consequência, o espectador mais atento e exigente.
Não sabia o que esperar quando comecei a ver a película, mas desde o primeiro ao último momento sentimos uma abismal atenção dada a todos os detalhes, desde o cenário na sua generalidade, ao guarda-roupa e caracterização das personagens, factores que, devo admitir, não são frequentemente meritórios da minha atenção mas que, com “Se, Jie”, se distinguiram de forma primorosa, concordando com uma fotografia e banda sonora sublimes. Não cuidem os leitores que todos os adjectivos estão a ser utilizados de forma irreflectida, pois é isso que, com a visualização desta autêntica obra-prima, vão ver.
Como se não bastasse a mestria de todos os aspectos técnicos, o argumento e a história são mais do que dignos de um destaque. Tomemos como ponto de partida a sinopse, que nos remete para uma China sombria, ocupada pelas impertinentes forças políticas e guardais japonesas, no contexto da segunda Grande Guerra. Wong Chia Chi é a nossa protagonista inicialmente imaculada, uma universitária que, aliada ao seu grupo de amigos radicalistas que protestam contra o regime imposto, vê a sua vida dar uma volta de cento e oitenta graus quando decidem infiltrar-se numa sociedade secreta japonesa e aniquilar o cabecilha policial Mr. Yee, responsável por uma tensão social que nas ruas chinesas se foi criando, teatralizando, com falsas identidades, uma família com um enorme poderio económico. Entre muitos erros e vitórias que se criam entre o grupo, o limite é chegado na recta final, em Xangai, com um final admirável (e também, para alguns, aberto), que terão de ver.
Assombrosas são, também, as cenas explícitas que retratam as relações sexuais entre Wong Chia Chi e Mr. Yee, mostrando uma sensibilidade e concupiscência inegáveis e que representam, em termos gerais, aquilo que “Sedução, Conspiração” é, na sua totalidade.
Estamos perante um thriller arrojado e mergulhado numa atmosfera neo-noir de prender a respiração, e de quase 3 horas passadas a voar; um romance negro, silencioso e improvável entre o lobo e a ovelha; uma trágica análise de todas as personagens, desmesuradamente apartadas da já bem conhecida distribuição bivalente feita para distinguir os heróis dos vilões; um retrato documental e preciso de um país acorrentado e sem esperança. Estamos, portanto, e sobretudo, perante uma preciosa obra-prima de visualização necessária e obrigatória, injustamente ignorada na sua estreia, mas que, e gosto de o imaginar assim, daqui a alguns anos, será um trabalho mais do que discutido e apreciado.


5 Responses to ““Se, Jie – Sedução, Conspiração””


  1. 4 de Janeiro de 2009 às 17:25

    Pipocas e Outras Tretas,

    O Ante-Cinema e o Hotvnews querem celebrar o final de um ano cinematográfico que teve, como não poderia deixar de ser, tanto bons como maus filmes. Assim sendo, queremos que vocês elejam uma lista com os vossos 10 preferidos para os melhores e piores filmes do ano de 2008. Além disto ainda vos pedimos o seguinte:

    – Eleição do Filme Surpresa de 2008
    – Eleição do Filme Desilusão de 2008

    Para saberem como participar vão a:

    http://ante-cinema.blogspot.com/ ou http://hotvnews.com.pt/

    Abraço.

  2. 4 de Janeiro de 2009 às 21:57

    EU já perdi algumas oportunidades de ver o filme apesar de já ter visto uns minutos no tvcine. No entanto o consenso geral é que são precisamente as cenas explícitas que prejudicam o resultado final emanando o extremo fetichismo de Ang Lee. Como não vi não posso avaliar mas acredito na tua opinião 😛 portanto quando o vir digo qualquer coisa.

    Abraço

  3. 3 Pipocas e Outras Tretas
    4 de Janeiro de 2009 às 22:04

    A meu ver, Fifeco, não prejudicam. São portadoras de uma grande beleza, que raramente vemos no cinema. Quando puderes, vê, que não te vais arrepender.
    Abraço 😉

  4. 10 de Janeiro de 2009 às 20:39

    Um dos mais belos filmes de 2008 estrado em Portugal, tb concordo com a opinião das cenas de seo prejudicarem a fita, são deveras fetichistas

  5. 5 neandromir
    22 de Janeiro de 2010 às 00:29

    Filme Maravilhoso!
    Quanto às cenas de sexo, não prejudicaram em nada. Pelo contrário.


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